01 Feb
Gentrificação na França: a história do conceito na sociologia urbana francesa
Lido 5464 vezes | Publicado em Entrevistas | Última modificação em 02-02-2017 11:34:15
 
Gentrificação na França Crédito: Site Paris-Lutte.Info/Reprodução
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A edição nº 27 da Revista e-metropolis apresenta, como destaque, a entrevista com a socióloga Catherine Bidou Zachariasen, uma das primeiras pesquisadoras a analisar os processos de gentrificação nos grandes centros urbanos na França. Durante a entrevista, a pesquisadora relata sua trajetória acadêmica na sociologia urbana e como o conceito da gentrificação foi incorporado nas análises sobre as estratégias residências das novas classes médias.

EDIÇÃO 27

A Revista eletrônica e-metropolis é uma publicação trimestral que tem como objetivo principal suscitar o debate e incentivar a divulgação de trabalhos, ensaios, resenhas, resultados parciais de pesquisas e propostas teórico-metodológicas relacionados à dinâmica da vida urbana contemporânea e áreas afins.

É direcionada a alunos de pós-graduação de forma a priorizar trabalhos que garantam o caráter multidisciplinar e que proporcionem um meio democrático e ágil de acesso ao conhecimento, estimulando a discussão sobre os múltiplos aspectos na vida nas grandes cidades.

 

ENTREVISTA

Catherine Bidou Zachariasen


e-metropolis: A partir de seus estudos sobre as novas classes médias na França você escreveu o livro Os aventureiros do cotidiano5. Poderia nos falar um pouco sobre as características deste grupo? Qual é a origem social de seus familiares, seus ideais e aspirações profissionais e pessoais?

Catherine Bidou: Diria que a origem desse grupo corresponde ao período da passagem do fordismo para o pós-fordismo. As novas funções no setor público e os postos de trabalho no setor privado necessitavam de mão de obra mais qualificada, e então as universidades tiveram um crescimento importante. Com isso ocorreu um processo de mobilidade social nunca antes visto no país. O que existia antes era um pequeno número de categorias profissionais mais qualificadas e um grande grupo de profissões não qualificadas. Mas naquele momento as camadas que vinham de famílias cujos pais tinham ocupações de baixa qualificação passaram a ter acesso à universidade e com isso houve uma forte mobilidade social.

Com esta mudança – a entrada na universidade e o acesso a postos de trabalho de maior qualificação – os filhos da classe operária já não se reconheciam nas representações de sua classe de origem. Eles passaram a dividir tarefas profissionais com pessoas de origem completamente diferente, com horizontes diversos.

Em minha análise, o que eu tentei demonstrar foi que eles tentaram produzir novas representações ou visões de mundo que correspondessem aos seus interesses. No meu livro eu demonstrei, a partir de uma série de entrevistas realizadas, que havia uma distinção bem clara entre eles (as novas classes médias – N.T.) e as representações que eram características tanto da classe burguesa quanto da classe operária. E a dimensão da vida cotidiana tinha uma importância central nisso. Daí surgiu o nome do livro

e-metropolis: Então podemos dizer que neste primeiro momento as famílias que foram para os bairros centrais populares fizeram esta escolha para marcar um modo de vida particular ou uma diferença com outros grupos da estrutura social ?

Catherine Bidou: Não exatamente. Na época era uma escolha por ficar na cidade, era uma questão de preço imobiliário. Não era para se distinguir. Nas cidades de Paris e Lyon o preço imobiliário dos bairros operários era muito baixo, pois ainda existia uma grande diferença de preço entre os bairros burgueses e os bairros operários, o que não acontece mais nos dias de hoje. Na época, era uma forma de poder adquirir um apartamento em um bairro que ainda era acessível, apesar de degradado e popular. Com a entrada da nova classe média nestes bairros, as famílias passaram a transformar e a renovar suas moradias e consequentemente a sua vizinhança como um todo. No início, era uma questão de querer continuar na cidade, próximo do trabalho... E com a presença deles, o bairro foi se transformando pouco a pouco... Os comércios e os serviços foram se modificando, mas foi involuntário e não um projeto premeditado. Eles não se sentiam mal nos bairros populares, porque muitos deles eram provenientes de famílias que também habitavam bairros da classe trabalhadora. Mas a mobilidade social ascendente deste grupo levou os bairros a passarem por um processo de revitalização.

e-metropolis: Você observa diferenças do perfil das pessoas que buscam os bairros populares hoje ?

Catherine-Bidou: Não, eu acho que permanece a mesma coisa hoje. O  bairro que estudei recentemente, na cidade de Lyon, as pessoas buscavam pelo preço mais barato da moradia. Os artistas que não tinham muito dinheiro procuravam locação de ateliê com preço baixo e a escolha era por condições objetivas, ou seja, moradias nas quais era possível pagar um aluguel. E foram suas práticas que fizeram o bairro se transformar. As pessoas que passaram a ir para lá em um segundo momento, instalaram-se não mais por necessidade, mas por escolha, porque aquele bairro tinha se tornado interessante. Isso aconteceu também no X e XI Arrondissement de Paris, que agora chamamos de bairros “Bobos”6. Há 30, 40 anos eram bairros degradados, e falava-se que as pessoas que se mudavam para lá tinham coragem por escolher um bairro tão popular. Eram profissionais qualificados de nível superior, eram professores universitários, engenheiros, artistas... Mas na época era uma escolha por um local  de moradia que fosse central.

e-metropolis: Isso toca um pouco na teoria de Neil Smith?

Catherine Bidou: Para Neil Smith, o processo de gentrificação é uma estratégia econômica do grande capital e não de pequenos atores privados. Para ele os agentes da transformação são, sobretudo, os promotores imobiliários, os capitalistas. Mas, por outro lado, existem outros autores que defendem que a gentrificação ocorre devido à ação de indivíduos que desejam um outro modo de vida... Eu sou mais desta ideia:  de que as pessoas escolheram morar no centro da cidade, e lá impuseram seu modo de vida. Um modo de vida que não existia antes e transformou aqueles espaços. Eu acho que Neil Smith era um marxista puro e duro, faltava um pouco de antropologia urbana na sua análise.

e-metropolis: Na sua opinião qual foi o papel do Estado no início do processo de gentrificação? Como o Estado entendeu o interesse das classes médias pelas regiões centrais?

Catherine Bidou: É preciso situar isso na história da moradia social na França. Nas primeiras décadas que se seguiram à II Guerra Mundial, o governo francês era muito voluntarista e se construía muita moradia nas periferias em grandes conjuntos habitacionais. No período de governo de François Mitterrand7, colocou-se em prática o que chamamos de Politique de la ville, para tentar melhorar os problemas urbanos que estavam surgindo nas periferias. No entanto, nos demos conta de que as classes médias estavam saindo dos grandes prédios construídos nos conjuntos habitacionais da periferia. As famílias começaram a voltar por vontade própria para as áreas centrais ou para pequenas cidades periurbanas, para ocupar um tecido urbano mais “tradicional”.

Progressivamente, o poder público foi tendo consciência de que os centros das cidades eram o objeto de interesse das classes médias e não as periferias (modernistas construídas no pós-guerra – nota do revisor). Na época, foram fortalecidas, pelo ministro da cultura Jack Lang8, as noções de conservação e valorização do patrimônio. Antes, isto não existia. Então, nessa época houve muito recurso para renovação dos centros antigos. Isto tinha relação com uma certa “ideologia das novas classes medias” que também se interessava em preservar e valorizar os centros antigos. E o poder público se deu conta de que algumas cidades estavam melhorando devido à recuperação ocorrida nos bairros degradados após a chegada das novas classes médias... Neste momento, eles viram a possibilidade de efetivar uma política pública de reabilitação das áreas centrais.

Tomemos como exemplo a renovação de Les Halles9, na região central de Paris. Nas décadas de 1960 e 1970 o governo destruiu esplêndidas construções para renovar os bairros centrais e isso tinha um espírito totalmente contrário ao que conduziu os processos de gentrificação na França, pois a gentrificação da forma como ocorreu aqui pressupunha a reabilitação/revitalização e não a destruição como ocorreu em Les Halles. No período de governo de Giscard D'Estein, estas destruições pararam. Giscard evitou, por exemplo, a destruição da antiga estação de trem d’Orsay e conservou o prédio para fazer o novo Museu d’Orsay. Dez anos antes, ele teria sido destruído para a construção de um museu novo e moderno. Então, a partir desse período houve uma mudança de espírito.

Então, a partir dos anos de 1980, iniciou-se nas grandes cidades francesas uma série de políticas urbanas que não previam mais a destruição do tecido urbano original para a construção de novas edificações modernas, mas, ao contrário, a revitalização progressiva dessas áreas. Mas esta mudança de atitude da parte do poder público foi influenciada pelos mesmos atores sociais que foram os agentes da gentrificação e que sempre defenderam a recuperação dos centros urbanos.

Com o passar do tempo começou a acontecer uma certa “mercantilização” desses processos por parte do poder público e do grande capital. Cabe lembrar que nessa mesma época começou a surgir também o que chamamos de “marketing urbano”. As cidades estavam competindo entre si e os prefeitos se tornaram figuras importantes mundialmente, como ocorrido, por exemplo em Barcelona. Então, os gestores públicos começaram a se interessar pela recuperação de elementos urbanos que eram valorizados pelas classes médias e altas.

 

Leia a entrevista completa no site da Revista e-metropolis.


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