15 Mar
Insurgência, planejamento e a perspectiva de um urbanismo humano
Read 3101 times | Published in Notícias | Last modified on 15-03-2017 19:36:31
 
Professora Faranak Miraftab (University of Illinois/EUA)
font size decrease font size increase font size
Rate this item
(0 votes)

O Observatório das Metrópoles divulga a Conferência “Insurgência, planejamento e a perspectiva de um urbanismo humano”, proferido pela professora Faranak Miraftab (University of Illinois/EUA), que abriu o IV World Planning Schools Congress (Rio de Janeiro, 2016). Miraftab argumenta que o planejamento está se defrontando com sua própria crise de identidade e legitimidade, uma crise que emerge de sua esquizofrenia profissional, razão pelo que sua própria imagem e ideia da profissão não se encaixam. Segundo ela, o planejamento progressista necessita romper com os postulados que o conduziram a tal crise existencial, necessitando de uma virada ontológica na teorização das práticas. Na apresentação ela desenvolve a argumentação, abordando: a esquizofrenia do planejamento; práticas insurgentes; imaginação e a urgência em descolonizar o futuro.

A Conferência de Abertura do o IV World Planning Schools Congress (Rio de Janeiro, 2016)  “Insurgência, planejamento e a perspectiva de um urbanismo humano”, proferido pela professora Faranak Miraftab, foi publicada na Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais (v. 18, n.3, dez 2016). A tradução foi feita por Ester Limonad, docente do Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal Fluminense (POSGEO/UFF).

RBEUR

A Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regioanis pertence a ANPUR, Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional, fundada em 1983, que aglutina e representa programas de pós-graduação e centros de ensino e/ou pesquisa das áreas do planejamento urbano e regional, do urbanismo, da geografia, da economia, da administração pública, das ciências sociais, do direito, do desenvolvimento regional, entre outras.

O conteúdo da revista se dirige a um público multidisciplinar de professores, pesquisadores, estudantes e profissionais do campo do planejamento e dos estudos urbanos e regionais. Além de chamadas temáticas a revista mantém um fluxo contínuo de submissão de textos e resenhas para publicação.

Criada em 1999, em versão impressa e com periodicidade semestral, a revista se consolidou como principal periódico na área de Planejamento Urbano e Regional.

IV WPSC

O IV World Planning Schools Congress aconteceu, em julho de 2016 no Rio de Janeiro, e teve o IPPUR/UFRJ - membro da ANPUR - como responsável pela organização desta edição. Além disto, contou com a colaboração também de parceiros das faculdades de Geografia da UFF e da UFMG, do PROURB/UFRJ e do CEDEPLAR.

O Observatório das Metrópoles esteve presente no evento, com destaque para a sessão sobre megaeventos esportivos, com Orlando Alves dos Santos Jr. e Christopher Gaffney. E a sessão sobre a urbanização neoliberal com Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro.

A seguir um trecho da Conferência da professora Faranak Miraftab (University of Illinois/EUA)

Insurgência, planejamento e a perspectiva de um urbanismo humano

Obrigada por esta apresentação. Inicialmente, gostaria de agradecer à comissão organizadora do World Planning Schools Conference por me convidar para abrir esse importante diálogo entre colegas de todo o mundo. É uma verdadeira honra e um privilégio me dirigir a um grupo internacional de estudiosos de renome, sendo que com alguns dos quais continuo a aprender. Como sempre, o conhecimento é uma produção coletiva, e, portanto, o que compartilharei com vocês hoje são meus conhecimentos, adquiridos através do diálogo com ativistas e acadêmicos de várias partes do mundo.

Não preciso dizer a esta audiência que vivemos em um momento de crise, uma crise global que não é apenas uma crise do capitalismo, mas também do planejamento como uma profissão e como uma ideia. Por isso, a urgência de nossas conversações neste congresso mundial, para discutir como podemos repensar o planejamento, o qual é parte integrante da crise contemporânea, e imaginar práticas de descolonização que tornem possível um urbanismo humano.

A crise contemporânea é insidiosa e infecta todas as dimensões da vida, em todos os cantos do globo. Mas isso não significa que estamos todos nela da mesma forma; essas crises afetam as pessoas distintamente em diferentes lugares, de formas que são injustas e desiguais. Poderosas economias, que produzem a desumanidade das crises globais, entretanto raramente assumem a responsabilidade por sua criação.

A atual guerra no Oriente Médio e seu deslocamento global é um exemplo. Hoje, mais de 60 milhões de pessoas, ou seja, uma em cada 122 pessoas no mundo, foram expulsas de seus lares pela guerra e outros perigos, uma taxa de sofrimento pior do que em qualquer outro momento da história humana. Mas, enquanto o mundo tem os seus olhos em quase um milhão de fugitivos que enfrentaram o Mar Mediterrâneo para alcançar a Europa, apenas cerca de 300.000 receberam a assim chamada “hospitalidade europeia”. A grande maioria dos refugiados permanece próxima a seus lares, sem muita atenção global, em lugares como a Turquia, Jordânia, Líbano, Iraque, Irã e Egito, em campos de refugiados como Zaatari na Jordânia, os quais são agora uma característica permanente das cidades e uma forma de urbanização.

Essa é, de fato, a era do desterro global, seja por causa das guerras e do petróleo, seja por causa da ganância do capital imobiliário gerando espoliação e expulsão urbanas.

Enquanto Congresso Mundial das Escolas de Planejamento (WPSC – 2016, World Planning Schools Congress), os debates em que embarcamos nos próximos dias concernem a como nós, enquanto acadêmicos do planejamento, treinando as próximas gerações de profissionais de planejamento, respondemos e nos engajamos em relação a essas crises e injustiça.

Eu argumento que o planejamento está se defrontando com sua própria crise de identidade e legitimidade, uma crise que emerge de sua esquizofrenia profissional, razão pelo que sua própria imagem e ideia da profissão não se encaixam. Daí, portanto, a necessidade de um novo tipo de planejamento, de um novo significado e de uma nova imaginação. O planejamento progressista necessita romper com os postulados que o conduziram a tal crise existencial. Necessita de uma virada ontológica na teorização das práticas de planejamento. Alguns a designam de planejamento insurgente, outros, inclusive alguns de nossos colegas aqui no Rio de Janeiro, a chamam de planejamento conflitivo.

Nesta apresentação enfoco como tal ruptura ontológica na teorização das práticas de planejamento requer, em primeiro lugar, reconhecer o leque de práticas além das sancionadas pelo Estado e poderes corporativos – nomeadamente as práticas insurgentes; e em segundo lugar, requer descolonizar a imaginação e as possibilidades para o futuro. Para isso, precisamos recorrer às práticas subordinadas, amadurecidas em movimentos anticoloniais e anticapitalistas de longa duração. Aí encontraremos a inspiração, os valores e os princípios orientadores para práticas que podem promover um futuro e um urbanismo mais humanos.

Deixem-me desenvolver essa argumentação passo a passo. Eu o faço em três atos:

Ato I. entendendo a esquizofrenia do planejamento;
Ato II. práticas insurgentes como um tipo diferente de planejamento;
Ato III. imaginação e a urgência em descolonizar o futuro.

E, então, finalizarei com uma breve reflexão sobre o que tudo isso representa para o ensino de planejamento.

 

Leia a Conferência completa de Faranak Miraftab no site da Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais.



Tagged under:
O laboratório da Coordenação Nacional da Rede INCT Observatório das Metrópoles está temporariamente fechado, por conta do incêndio ocorrido, no começo de outubro, no Prédio da Reitoria da UFRJ.

Pedimos que os contatos sejam realizados pelos seguintes e-mails:

Elizabeth Alves
beth@observatoriodasmetropoles.net

Assuntos administrativos

Karol de Souza
karol@observatoriodasmetropoles.net

Assessoria de Comunicação

Breno Procópio
comunicacao@observatoriodasmetropoles.net

Assuntos Acadêmicos

Juciano Rodrigues
juciano@observatoriodasmetropoles.net